Paternidade ativa: por que ela é importante para a saúde de todos
Ciência aponta que presença paterna está ligada a benefícios emocionais, sociais e cognitivos para crianças e adultos
Ciência aponta que presença paterna está ligada a benefícios emocionais, sociais e cognitivos para crianças e adultos. (Foto: Magnific)
Uma mudança recente na legislação brasileira colocou a paternidade no centro do debate. Sancionada pelo governo federal no fim de março, a lei nº 15.371 amplia a licença-paternidade para 20 dias e cria o chamado salário-paternidade. É um avanço simbólico e prático num país onde, por décadas, cuidar dos filhos foi visto como tarefa exclusiva das mães. Mas a ciência sugere que essa discussão vai muito além de direitos trabalhistas: ela entra diretamente no campo da saúde pública.
Hoje, há evidências consistentes de que a presença paterna está ligada a melhores desfechos emocionais, sociais e cognitivos nas crianças, refletindo, inclusive, em melhor desempenho acadêmico, além de contribuir para a igualdade de gênero e o combate à violência doméstica.
Na prática, crianças com pais mais envolvidos tendem a apresentar menos sintomas de ansiedade, menos problemas de comportamento e mais habilidade para lidar com emoções. “Pais presentes costumam ter menos agravos de saúde mental, mais acesso a redes de apoio, tempo de qualidade com seus filhos e maior capacidade de perceber quando algo não vai bem”, aponta o psiquiatra Diego Ortega, especialista em infância e adolescência, do Einstein Hospital Israelita.
No entanto, para um impacto ainda mais positivo nos filhos, a saúde mental do pai também merece atenção. “Existe uma associação importante entre depressão, ansiedade e estresse paterno e desfechos negativos no desenvolvimento infantil, em especial na regulação do humor e nas dificuldades sociais”, explica Ortega.
Não é só estar, é se conectar
A ausência paterna não precisa ser física para deixar marcas. A chamada negligência emocional — quando o pai está presente, mas distante — também pesa. “Crianças que percebem pais emocionalmente distantes costumam ter mais sintomas psíquicos ao longo da vida, mesmo quando adultas”, alerta o psiquiatra. Ou seja, não basta dividir o mesmo teto: o vínculo emocional, a escuta e a participação ativa no cotidiano são fatores que realmente moldam o desenvolvimento da criança. Isso inclui coisas simples, mas poderosas, como brincar, conversar e observar. Um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, sugere trajetórias de desenvolvimento mais saudáveis quando pais interagem de forma criativa com filhos pequenos ou demonstram crenças positivas sobre a parentalidade desde os primeiros meses de vida da criança. Segurar o bebê nos braços e fazer contato pele a pele não representam, portanto, apenas carinho — são atitudes que transformam o cérebro. Trocar fraldas, dar banho, ler em voz alta, recitar cantigas de ninar, cantar e cozinhar são gestos com impactos poderosos para toda a família.
Os efeitos são inclusive fisiológicos. Uma pesquisa nos Estados Unidos com homens e seus pais, publicada no periódico Developmental Psychobiology, constatou que a quantidade e a qualidade do envolvimento paterno durante a infância levaram a níveis de cortisol mais regulados 30 anos depois. Isso significa menor risco de transtorno de ansiedade, depressão e problemas de insônia na vida adulta. Além disso, o nível de envolvimento paterno reduziu significativamente o uso de drogas ilícitas e tabaco pelos filhos durante a faixa dos 20 anos de idade.
Pai não “ajuda”
A sobrecarga materna é um dos efeitos mais visíveis da ausência paterna, e ela também afeta as crianças. Há evidências de que a depressão pós-parto, por exemplo, pode ser parcialmente compensada por um envolvimento consistente do pai, reduzindo riscos de problemas comportamentais nos filhos.
No entanto, ainda hoje, muitos homens descrevem sua participação como uma “ajuda”. Mas a palavra entrega uma visão ultrapassada. “O cuidado com os filhos é uma oportunidade de construção, de cumplicidade e de desenvolvimento social para todos”, afirma a psicóloga Marianne Ramos Feijó, professora da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) em Bauru, no interior paulista. “Um pai responsável participa dos cuidados, do sustento, do lazer e da educação, que envolve diálogos e também limites.”
Para muitas mulheres, contar com um parceiro presente, atento e realmente envolvido nos cuidados da casa e dos filhos representa uma divisão mais justa das responsabilidades do dia a dia. Isso reduz a sobrecarga, favorece um equilíbrio saudável entre trabalho, vida familiar e momentos de descanso, além de contribuir para relações familiares mais harmoniosas e acolhedoras.
Essa divisão, porém, esbarra muitas vezes em obstáculos como jornadas de trabalho longas, falta de políticas públicas e padrões culturais que ainda colocam a mulher como principal cuidadora. Mas o cenário está mudando. “Hoje, já vemos modelos mais promissores e equitativos de divisão nos cuidados com filhos nas famílias”, afirma Feijó.
Sinais de alerta (e de oportunidade)
Nem sempre os impactos da ausência paterna são imediatos ou óbvios, mas algumas atitudes podem servir de alerta. “Crianças que mudam padrões de comportamento subitamente podem estar dando os primeiros sinais de dificuldade”, aponta Diego Ortega. Outros pontos de atenção incluem queda no desempenho escolar, isolamento ou irritabilidade.
Esses comportamentos podem ter múltiplas causas, mas pais presentes tendem a identificar mais cedo e agir. E isso vale também para a adolescência, quando um afastamento parcial do filho é esperado, mas não definitivo. “É necessário estar a postos para quando ele se aproximar novamente, seja para pedir ajuda, seja para compartilhar os sucessos fora do leito familiar”, orienta o psiquiatra do Einstein.
Para aqueles que buscam uma paternidade ativa e já estão no meio do caminho da criação dos filhos, ainda dá tempo de mudar. Mesmo que o envolvimento não tenha acontecido desde o início, vínculos podem ser reconstruídos. “O potencial das crianças e das pessoas é enorme”, reforça o médico.
O primeiro passo é simples, mas exige disposição: conhecer o filho de novo, sem julgamentos ou expectativas. “É um começo humilde, mas razoável, que qualquer pai pode adotar”, observa Ortega. E a curiosidade infantil pelo outro pode ajudar nesse processo. A paternidade ativa não é apenas um ideal moderno ou uma pauta social: é um fator concreto de saúde para crianças, mães e os próprios pais. Ela melhora vínculos, reduz estresse, favorece o desenvolvimento emocional e ainda forma adultos mais preparados para lidar com o mundo.
Fonte: Agência Einstein