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Abastecendo o Amanhã

Como os carros voadores estão desenhando a nova malha elétrica das cidades

Hitachi Energy e Eve Air Mobility fecham parceria estratégica para viabilizar vertiportos e resolver o maior desafio silencioso da aviação urbana de alta frequência.

17 de julho de 2026 por LIDE

Imagine olhar para o céu de uma metrópole e ver dezenas de aeronaves elétricas deslizando silenciosamente entre edifícios, conectando bairros distantes em minutos. Essa cena, que por décadas habitou o imaginário da ficção científica, está prestes a se tornar rotina. No entanto, longe dos holofotes do design aerodinâmico e dos rotores silenciosos, reside uma pergunta crucial: de onde virá a energia para manter essa revolução no ar?

Para que os chamados eVTOLs (aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical) transformem de fato a mobilidade urbana, as cidades precisarão de um ecossistema invisível, mas monumental. Sabendo disso, a Hitachi Energy, líder global em tecnologias de eletrificação, e a Eve Air Mobility, gigante do setor nascida sob o DNA da Embraer, anunciaram hoje em São Paulo a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU). O objetivo é desenhar e viabilizar a infraestrutura elétrica que sustentará os céus do futuro.

5jVmOllzMyEDM6InYu02bj5SYpJ3bk9Gc1J3ZAxWZ05WZtlGcvlGZ1FGbjpzNyEDMwUzNyMTM6cmbw5SYjRzYlVjZ4MDZ3kTM1UTOzYDO5EDOhVTO1QGN3czYlZkMlczYlZkMlczN2gjMGJTJwMTMx8VL1ETLf9VLwITLfpDOA experiência da Hitachi Energy em integração de redes e infraestrutura de carregamento aliada ao desenvolvimento do eVTOL da Eve, viabilizando um ecossistema conectado de mobilidade aérea urbana. (Foto: Divulgação)

O desafio silencioso da alta demanda

A frota comercial de eVTOLs da Eve tem previsão para ganhar os céus em 2028. A demanda é real e expressiva: a empresa já soma cerca de 2.700 cartas de intenção de compra globalmente. Mas a operação de "vertiportos" — os terminais urbanos de pouso e decolagem — impõe desafios sem precedentes às redes elétricas atuais.

Diferente de um carro elétrico comum, que pode carregar lentamente durante a noite na garagem, um veículo de transporte aéreo urbano exige ciclos rápidos de altíssima potência. Para que o modelo de negócios funcione, o tempo em solo precisa ser mínimo, demandando surtos de energia concentrados que poderiam, sem o devido planejamento, desestabilizar as redes de distribuição locais. Para mitigar esse impacto, a Hitachi Energy trará para o projeto sua consagrada tecnologia de carregamento inteligente em larga escala, a Grid-eMotion®, adaptando-a especificamente para o setor aeroespacial com o objetivo de otimizar o fluxo de energia sem sobrecarregar as cidades.

Mais do que carregadores: um ecossistema conectado

A união das duas companhias cria uma ponte inédita entre o setor aeroespacial e a engenharia de potência. Enquanto a Eve avança com o desenvolvimento de sua aeronave e um portfólio robusto de serviços e gestão de tráfego aéreo urbano, a Hitachi Energy entra com a maestria em eletrônica de potência, integração de redes e sistemas digitais.

A colaboração também foca na economia circular. Uma das vertentes mais fascinantes do acordo é o estudo da reutilização de baterias. Quando uma bateria de eVTOL encerrar seu ciclo de vida útil ideal para voos — onde a exigência de segurança e densidade energética é máxima —, ela ainda guardará enorme capacidade de retenção de carga. A proposta é redirecionar essas baterias para sistemas de armazenamento de energia estacionária em solo, ajudando a estabilizar a própria rede elétrica urbana e reduzindo a pegada ambiental do setor.

"A infraestrutura elétrica é um elemento fundamental para viabilizar operações seguras, eficientes e escaláveis de eVTOL. Não se trata apenas de instalar carregadores, mas de planejar a disponibilidade de potência, os ciclos de recarga, a integração com a rede e o gerenciamento de energia de forma coordenada."

Luiz Mauad, Vice-Presidente de Serviços ao Cliente da Eve.

DNA brasileiro e olhar global

Embora o desenho regulatório e técnico tenha como palco inicial o Brasil — um polo histórico de aviação graças ao legado de 56 anos da Embraer —, o modelo de negócios e a arquitetura tecnológica desenhados aqui nascem prontos para exportação. A Hitachi Energy, que está investindo globalmente mais de US$ 9 bilhões para expandir sua capacidade de pesquisa e modernização de redes, enxerga essa aliança como o início de um padrão global.

Com essa união, o horizonte da mobilidade urbana limpa parece consideravelmente mais próximo e realizável. O futuro das nossas cidades não dependerá apenas da audácia de voar, mas sim da inteligência e resiliência com que conectamos nossos céus de volta à terra.

"A próxima fase da mobilidade aérea urbana será definida pela eficácia com que construímos o ecossistema elétrico correto. Essa abordagem tem o potencial de ser replicada em mercados de todo o mundo, acelerando uma indústria mais sustentável, conectada e escalável."

Glauco de Freitas, Head de South LATAM da Hitachi Energy.