Startup latino-americana de IA levanta US$ 2,1 milhões e aposta no Brasil para digitalizar oficinas mecânicas
A Pitz — plataforma mexicana de inteligência artificial voltada a oficinas mecânicas — lança operações no Brasil, busca digitalizar um segmento fortemente tradicional e atrai fundos globais para escalar na América Latina.
Pitz pretende reduzir tempo de espera e custo dos reparos, simplificando tarefas como elaboração de orçamentos e agendamento de atendimentos. (Foto: Divulgação/Pitz)
A transformação digital das oficinas mecânicas ganha um novo protagonista. A Pitz, startup mexicana que utiliza inteligência artificial e automação para otimizar o dia a dia de mecânicos e gestores, estreia oficialmente no Brasil neste mês de outubro. A empresa chega embalada por uma rodada de investimento de US$ 2,1 milhões, que contou com fundos globais como Hustle Fund, Marathon Ventures, 500 Startups, Cracks Fund e investidores-anjo ligados ao automobilismo, incluindo nomes da Fórmula 1.
A proposta da Pitz é ambiciosa: tornar-se o sistema operacional das oficinas mecânicas na América Latina, uma região onde, segundo dados da própria empresa, 85% dos estabelecimentos ainda funcionam com papel e caneta. Com sua plataforma, a startup promete aumentar o faturamento em até 30% e recuperar até 500 horas de produtividade por mês, ao substituir processos manuais por automações com IA — desde a elaboração de orçamentos e o agendamento de serviços até o controle de estoque e a emissão de cobranças.
O sistema, que também oferece módulos de gestão de frotas com controle de combustível, manutenção e rastreamento, foi desenhado para o cotidiano das oficinas independentes, profissionais autônomos e concessionárias. No Brasil, o serviço será pago em reais, por assinatura mensal e sem multa de cancelamento, numa tentativa de eliminar barreiras para a digitalização de pequenos negócios.
À frente da operação está a colombiana Natalia Salcedo, que construiu carreira em startups de crescimento exponencial. Ela integrou a equipe inicial da Rappi, cofundou a Jokr/Daki — unicórnio de entregas rápidas — e criou a Meru, marketplace B2B de autopeças que alcançou o ponto de equilíbrio financeiro e movimentou milhões em transações. Agora, com a Pitz, Salcedo reúne as experiências anteriores para transformar um setor que, nas suas palavras, “sustenta a vida cotidiana, mas foi ignorado pela tecnologia e pelo capital”.
“Queremos que qualquer mecânico, apenas usando o celular e a voz, opere como se tivesse uma equipe corporativa ao seu lado, tomando decisões inteligentes, retendo clientes e automatizando processos”, afirma a empreendedora. O aplicativo, segundo dados da empresa, já registra média de 3,7 acessos diários por usuário e churn zero desde o lançamento. A tecnologia combina diagnóstico por voz, automação de fluxo de trabalho e marketplace de peças, o que, de acordo com Salcedo, “dignifica e profissionaliza um ofício essencial sem impor ferramentas complexas”.

Fundadora colombiana Natalia Salcedo, em sua terceira empreitada, lidera a ferramenta inovadora com inteligência artificial. (Foto: Divulgação/Pitz)
A aposta da Pitz no Brasil é estratégica. O país concentra um dos maiores mercados de manutenção automotiva da região, mas ainda sofre com baixa digitalização e forte pulverização — mais de 70% das oficinas são independentes e atuam sem sistemas integrados de gestão. A meta da empresa é atingir mil oficinas ativas no país até 2026, como parte de um plano mais amplo de expansão que inclui México, Colômbia e Estados Unidos.
Para investidores, o modelo da Pitz acena para um mercado pouco explorado e de alto impacto. O setor automotivo pós-venda movimenta bilhões por ano na América Latina, mas carece de infraestrutura tecnológica básica. A startup aposta que a combinação de inteligência artificial acessível e simplicidade operacional pode romper essa barreira, oferecendo ganhos tangíveis de produtividade e receita.
O desafio, contudo, será escalar. A adoção de novas tecnologias por oficinas tradicionais tende a ser lenta e depende de mudanças culturais e capacitação, além da prova de que o software realmente entrega resultados consistentes em diferentes mercados. Salcedo acredita que o diferencial da Pitz está justamente em sua simplicidade: “Nossa missão é reduzir a ansiedade que uma ida à oficina costuma causar — tanto para o cliente quanto para o mecânico. Quando a experiência melhora, o negócio cresce”.
Com o lançamento brasileiro, a Pitz se junta a uma nova geração de startups que miram nichos tradicionais da economia — mercados grandes, mas historicamente fora do radar do capital de risco. Se conseguir replicar no Brasil o desempenho obtido no México, a empresa pode não apenas digitalizar oficinas, mas também se consolidar como case de expansão de tecnologia latino-americana, nascida e liderada por uma mulher, e voltada a um dos setores mais antigos e essenciais da mobilidade.