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"Se não fizer por propósito, faça porque dá lucro": as lições de Luiza Helena Trajano sobre o Brasil 

Em entrevista ao canal Equidade, presidente do conselho do Magalu defende o legado do trainee para negros, cobra autoestima nacional e propõe planejamento estratégico para o país até 2040.

15 de julho de 2026 - Atualizado há 1 hora por Ivan Lima, head do LIDE Equidade Racial

"Se não fizer por propósito, faça porque dá lucro." Com a franqueza que se tornou sua marca registrada, Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e fundadora do Grupo Mulheres do Brasil, sintetizou o papel urgente da diversidade e da inclusão no ecossistema corporativo atual. Em entrevista conduzida por Ivan Lima, head do LIDE Equidade Racial, no Canal Equidade, da TV LIDE,  a empresária relembrou os bastidores do histórico e contestado programa de trainee exclusivo para negros do Magalu, rebateu críticas ao modelo de cotas e cobrou um plano estratégico de longo prazo capaz de destravar a economia nacional e combater a desigualdade social no Brasil. 

A trajetória de Luiza Helena Trajano confunde-se com a própria história do varejo e do desenvolvimento social no país. Na conversa com Ivan Lima, a executiva compartilhou sua visão sobre o potencial de transformação da sociedade civil, o papel das lideranças humanizadas e o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Assista ao episódio de estreia completo ao final dessa reportagem.

WhatsApp Image 2026-07-15 at 14.49.17 (2)22222Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e fundadora do Grupo Mulheres do Brasil. (Foto: Trinca Produções)

Valores de berço: "Criada com pouca dó de mim"

Ao ser questionada sobre suas memórias de infância em Franca (SP) e a influência de sua tia, Luiza de Souza Bandeira, fundadora da rede, a empresária destacou a força das mulheres que a cercaram desde cedo. Mais do que receitas prontas para o sucesso, a criação moldou sua resiliência perante as crises:

"Eu fui criada com mulheres fortes e que acreditavam na força da mulher quando ainda era muito difícil isso. Fui criada com pouca dó de mim, mas achando que eu era capaz. Acredito que tudo tem solução, a não ser a doença."

Esse pragmatismo focado na resolução de problemas, herdado de sua mãe — que sempre a instigava a buscar soluções em vez de se colocar na posição de vítima —, tornou-se a base de sua atuação corporativa e social.

O compromisso histórico com a equidade racial

Luiza revelou que sua sensibilidade social em relação à desigualdade racial despertou cedo, aos 12 anos, ao estudar a fundo a história da escravidão no Brasil. "A escravidão trouxe pobreza, racismo, desigualdade. Desde aquela época, senti que tinha de ser protagonista e não ficar vendo a banda passar", afirmou.

Essa visão se materializou de forma contundente anos mais tarde, em 2020, com o lançamento do pioneiro Programa de Trainee para Negros do Magazine Luiza. A iniciativa, que inicialmente enfrentou forte resistência e contestações jurídicas, abriu caminhos para que dezenas de outras grandes corporações revissem seus processos de recrutamento no país.

"A diversidade deve ser vista por dois lados", explicou a executiva. "O lado do propósito, dos valores, e o lado técnico, da empresa. O Brasil tem mais de 50% de negros, mais de 50% de mulheres. Como lidar com inovação se as pessoas que representam o consumidor não estiverem sentadas à mesa de decisão? Se não fizer por propósito, faça porque dá lucro."

Para Luiza, as cotas são fundamentais como ferramentas de correção histórica. "Cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade. Se as oportunidades fossem iguais, não precisaríamos delas. Mas políticas públicas e ações afirmativas são necessárias para dar oportunidade a todos, e não apenas a alguns privilegiados."

WhatsApp Image 2026-07-15 at 15.17.13 (1)"Se não fizer por propósito, faça porque dá lucro": as lições de Luiza Helena Trajano sobre o Brasil. (Foto: Trinca Produções)

Inteligência artificial e o valor do conteúdo humano

Olhando para o futuro do mercado de trabalho e o avanço da tecnologia, a empresária demonstrou otimismo e alertou que o diferencial competitivo continuará sendo a bagagem humana. Na era da inteligência artificial, que ela define como um "tsunami", o que realmente importará é o repertório acumulado nas batalhas diárias.

"O que você tem de mais importante é o seu conteúdo, aquilo que você teve de lutar para conquistar. É isso que dá insumo para a inteligência artificial. Não é o tablet ou o sistema; é como você entrega valor na ponta", ponderou, aconselhando os jovens que estão começando a não negarem as transformações tecnológicas e a manterem a busca constante pelo aprendizado.

O Brasil de 2040: Planejamento estratégico e autoestima

Apaixonada pelo país, Luiza Helena Trajano faz questão de manter rituais cívicos em sua rotina — como cantar o Hino Nacional todas as segundas-feiras com as equipes do Magazine Luiza. Ela acredita que o Brasil possui todas as ferramentas para se consolidar como uma potência global, destacando a diversidade econômica, a abundância de recursos naturais e a vocação inata do brasileiro para o empreendedorismo.

No entanto, a empresária aponta dois grandes gargalos que impedem o país de dar o salto definitivo: a falta de planejamento a longo prazo e a baixa autoestima da população.

"Falta termos um plano estratégico para o país até 2040, que fique acima dos interesses partidários e governamentais. Além disso, precisamos resgatar a nossa autoestima. O brasileiro tem o hábito de falar mal do próprio país. Temos estúdios, tecnologia e profissionais de ponta que não devem nada a lugar nenhum do mundo."

O legado de quem "tocou na banda"

Aos 74 anos, com uma energia inesgotável que impressiona quem está ao seu redor, Luiza Helena Trajano é categórica ao definir como deseja ser lembrada pelas próximas gerações e por seus netos.

"Queria ser vista como uma pessoa que tocou na banda e que não viu a banda passar. Toquei com momentos desafinados, cansada, muitas vezes fora do rumo comum, mas sempre com a intenção de fazer o bem. Lutei muito para não ficar acomodada, porque a acomodação faz muito mal", concluiu a líder, deixando um chamado claro para que o empresariado e a sociedade civil assumam o protagonismo na construção de um Brasil mais justo.

Assista ao episório completo: 

O Canal Equidade é uma produção da TV LIDE com coprodução da Trinca Produções. O patrocínio desta terceira temporada é da Tour House.