CEOs de Latam, Gol e Azul apontam "trabalho medíocre" no turismo e alertam para impacto da reforma tributária na aviação
No Seminário LIDE Turismo, CEOs das três maiores companhias aéreas do país deixam rivalidades de lado, cobram união setorial e criticam custos estruturais que travam o crescimento do setor.
Em um movimento raro e de forte alinhamento político e institucional, os CEOs das três maiores companhias aéreas do Brasil — Jerome Cadier (LATAM Brasil), Celso Ferrer (GOL) e John Rodgerson (Azul) — protagonizaram um debate histórico nesta quarta-feira (10), durante o Seminário LIDE Turismo, realizado na Casa LIDE, em São Paulo. Longe de rivalidades comerciais, os executivos mapearam os gargalos estruturais que fazem a aviação comercial patinar há 15 anos no país e emitiram um alerta conjunto sobre o impacto severo da reforma tributária e dos custos operacionais no bolso do consumidor.
Jerome Cadier (LATAM Brasil), John Rodgerson (Azul) e Celso Ferrer (GOL). (Fotos: Evandro Macedo/LIDE)
O encontro estratégico ocorreu no mesmo dia em que as empresas formalizaram o pedido de acesso à linha de crédito de R$ 5,5 bilhões do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), considerada um respiro crucial diante da forte pressão econômica sobre o setor.
O diagnóstico da "mediocridade coletiva"
O tom mais contundente do painel foi adotado por Jerome Cadier. O CEO da LATAM Brasil afirmou ser "movido pela dor" de ver o potencial turístico brasileiro ser desperdiçado. Ele não poupou críticas ao desempenho histórico do setor ao compará-lo com os vizinhos sul-americanos.
"Se individualmente cada um de nós acha que faz um trabalho bom, coletivamente o setor de turismo do Brasil faz um trabalho medíocre. O Chile tem o dobro de passageiros por habitante, por ano, do que o Brasil. A gente tem metade do Chile, metade da Colômbia. Se não levarmos uma voz unificada de que a grande alavanca de crescimento desse país é o turismo, vamos continuar medíocres daqui a cinco anos", desabafou Cadier.
O executivo apontou a falta de perenidade nas políticas públicas como um dos principais fatores para a estagnação. "Foram 20 anos e 20 ministros do Turismo. Não tem continuidade nenhuma no Brasil. O seguinte desfaz tudo o que o anterior fez."
Reforma tributária: uma "bomba atômica" nos custos
A aplicação da nova reforma tributária sobre a aviação foi apontada como um dos maiores riscos iminentes para a sobrevivência das empresas e a acessibilidade das passagens. Cadier revelou números alarmantes sobre a operação da LATAM:
"A LATAM paga R$ 2 bilhões de reais em impostos hoje. Com a reforma tributária implementada, isso vai passar para R$ 6 bilhões de reais. E não é a LATAM que paga o imposto, ela repassa. Quem paga é o cliente, é quem está voando. Somando LATAM, GOL e Azul, vai ser impossível sobreviver se não mudar", alertou.
O paradoxo do turismo nacional e a barreira dos custos
John Rodgerson, CEO da Azul, endossou as críticas à carga tributária, classificando o peso dos impostos sobre o setor como "a coisa mais burra que se pode fazer", devido ao efeito multiplicador que a aviação exerce na economia real.
Rodgerson destacou o paradoxo cultural e econômico que faz o brasileiro preferir destinos internacionais a valorizar o próprio país, citando o exemplo de Orlando, na Flórida, que ironizou como sendo "outra cidade brasileira, só que um pouco mais ao norte". Ele relembrou uma máxima bem-humorada utilizada internamente na Azul: "Se tiver dinheiro, vai para o Nordeste; se não tiver dinheiro, vai para a Flórida", explicitando como os picos de alta temporada inflacionam os custos domésticos enquanto destinos nacionais ficam ociosos no restante do ano.
O CEO da Azul ressaltou que 70% dos viajantes no país hoje são corporativos. O verdadeiro salto do PIB do turismo ocorrerá quando a classe média começar a viajar a lazer pelo Brasil. No entanto, os custos estruturais impedem essa inclusão:
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Combustível: O Brasil tem o combustível de aviação mais caro do mundo, mesmo sendo um país autossuficiente em petróleo.
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Judicialização: O país detém apenas 3% dos voos mundiais, mas concentra impressionantes 98% dos processos judiciais do setor globalmente, impulsionados por uma indústria de litígios que encarece as passagens.
Infraestrutura e planejamento de longo prazo
Representando a GOL Linhas Aéreas, o CEO Celso Ferrer trouxe a perspectiva de que a aviação estancou em um patamar de 95 a 100 milhões de passageiros anuais na última década. Ele ponderou que, embora o ano anterior tenha registrado recordes operacionais, o setor está parado no mesmo patamar há 15 anos, sendo que o último ciclo de grande desenvolvimento ocorreu entre 2000 e 2008.
Ferrer defendeu que a aviação possui tentáculos em toda a cadeia econômica e que a sustentabilidade dos investimentos exige segurança jurídica e visão de longo prazo.
"Uma aeronave que operamos aqui custa entre 40 milhões e 200 milhões de dólares. Você não toma a decisão de trazer um avião olhando o curto prazo, porque no primeiro ou segundo ano você não rentabiliza esse investimento; rentabiliza ao longo de sete ou oito anos. Quando só tratamos do problema do mês, o setor cresce menos, segura investimentos e deixa de gerar empregos", explicou Ferrer.
Um apelo por união e "pensar grande"
Ao fim do painel, os três executivos convergiram para um apelo comum: a necessidade urgente de uma interlocução unificada e assertiva com o Governo Federal. Eles reconheceram que as disputas comerciais cotidianas ("puxar o tapete do outro", nas palavras citadas de encontros anteriores) precisam cessar quando o tema é a sobrevivência da malha aérea nacional.
O seminário, mediado por lideranças do LIDE como o ex-ministro Vinicius Lummertz e o head do comitê de Turismo, Marcos Arbaitman, encerrou-se com um desafio claro: o setor precisa parar de discutir demandas menores e focar em triplicar a aviação no país para alcançar, ao menos, os índices de passageiros por habitante de seus pares latino-americanos.