Intel cresce na América Latina, mas escassez de chips limita expansão
Novo chefe regional afirma que a operação segue aquecida, enquanto a companhia aposta no avanço da inteligência artificial para ampliar a demanda por seus processadores.

A operação da Intel na América Latina mantém uma trajetória de crescimento, apesar das turbulências enfrentadas pela matriz e da escassez global de chips. Segundo João Bortone, diretor-geral da companhia para a região, a presença da marca no Brasil e nos demais mercados latino-americanos chega a superar a registrada em regiões mais maduras, como a Europa.
“O negócio continua sendo saudável e continua em crescimento. Poderia ser mais? Poderia. Mas a questão de supply também nos afeta, logo que não conseguimos suprir 100% de um mercado no momento”, afirmou Bortone em entrevista à Bloomberg Línea. “Estamos em um excelente momento.”
O executivo assumiu a operação latino-americana em 4 de maio, no lugar de Gisselle Ruiz Lanza, que passou a comandar a empresa na Europa, no Oriente Médio e na África. A nomeação marcou seu retorno à Intel, onde trabalhou no início dos anos 2000. Bortone também passou por Google e Dell.
Sua chegada ocorre durante o processo de transformação conduzido pelo CEO global Lip-Bu Tan. A Intel tenta recuperar força em um mercado marcado pela disputa por capacidade de fabricação, pela corrida da inteligência artificial e pela entrada do governo dos Estados Unidos como acionista, com uma participação de 9,9%.
“Estamos no meio de uma transformação, que não tem um prazo para acabar, mas estamos nos adaptando às novas condições de mercado, econômicas e geopolíticas. Estamos em um momento bom, tanto na percepção de mercado em relação à companhia quanto na nossa performance em vendas”, disse Bortone.
Escassez ainda limita oferta
O novo diretor-geral assumiu a operação regional diante do desafio de conciliar a necessidade de crescimento com a escassez global de chips, que afeta tanto o mercado de computadores pessoais quanto o de centros de dados.
No segmento de PCs, Bortone prevê uma possível melhora nos próximos meses. “Do lado de PCs, nós temos trabalhado bastante e talvez consigamos uma normalização no curto prazo. Diria que a situação no segundo semestre pode melhorar um pouco”, afirmou.
Os prazos de entrega variam conforme o comprador, o projeto e o modelo adquirido. “Nós temos conseguido atender bem os nossos clientes, menos do que gostaríamos, óbvio”, disse o executivo.
A normalização deverá demorar mais no segmento de centros de dados. Enquanto o treinamento dos modelos de inteligência artificial impulsiona principalmente a demanda por unidades de processamento gráfico, conhecidas como GPUs, a Intel concentra sua aposta na etapa seguinte, quando a tecnologia já treinada utiliza o que aprendeu para executar tarefas.
Essa fase favorece a demanda por unidades centrais de processamento, as CPUs, mercado no qual a Intel mantém forte presença.
Mercado pode alcançar US$ 132 bilhões
Levantamento do Citigroup estima que o mercado de CPUs para servidores avance de US$ 29,3 bilhões, em 2025, para aproximadamente US$ 132 bilhões até 2030, puxado principalmente pelos processadores destinados à inteligência artificial agêntica.
A projeção indica que a Intel poderá chegar ao fim da década com 47% desse mercado. A AMD teria 34%, enquanto ARM e outros concorrentes dividiriam os 19% restantes.
“A inferência, essa grande onda, é muito maior do que o treinamento”, afirmou Bortone. Segundo ele, é nessa etapa que “os agentes de IA chegam à ponta, chegam às empresas, chegam ao governo, chegam aos consumidores finais. Quando a IA já aprendeu e consegue executar os programas”.
Ao apresentar o balanço trimestral da companhia em abril, Tan afirmou que a Intel continuava concentrada em maximizar sua rede de fábricas para ampliar a oferta e atender aos clientes. Para o CEO, a migração para a inferência aumenta significativamente a necessidade de CPUs, wafers e soluções de encapsulamento avançado da empresa.
Bortone também pretende aproximar a operação regional de fabricantes de computadores, como Lenovo, Dell e Positivo, e de plataformas de computação em nuvem, entre elas Microsoft Azure, Amazon Web Services e Google Cloud.
“O papel da Intel é mover o mercado, independente da construção de cada negócio”, afirmou. Para conduzir a estratégia comercial, o executivo pretende imprimir maior velocidade à operação. “Trabalhando com vendas, você aprende a ter senso de urgência. O senso de urgência para mim é tudo.”