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Colecionismo

Martin Margiela abre arquivo pessoal e revela o legado de um dos criadores mais discretos da moda

Mais de 190 lotes, entre roupas, esboços, fotografias e objetos pessoais, revelam pela primeira vez o universo criativo de um dos estilistas mais influentes e enigmáticos da moda contemporânea.

07 de julho de 2026 por ROBB REPORT BRASIL | fotos Maurice Auction e Kerry Taylor Auctions

Martin-MargielaMartin Margiela abre pela primeira vez seu arquivo pessoal em um leilão sem precedentes.

Poucos nomes transformaram a moda de forma tão silenciosa quanto Martin Margiela. Em uma época dominada por cores vibrantes, silhuetas exageradas e estilistas celebridades, o designer belga seguiu um caminho oposto. Sua estética desconstrutivista, o uso de referências garimpadas em diferentes épocas e culturas e a recusa em assumir o protagonismo diante das câmeras ajudaram a redefinir a linguagem da moda contemporânea. Agora, quase duas décadas depois de deixar a maison que fundou, Margiela abre pela primeira vez seu arquivo pessoal em um leilão sem precedentes.

Organizada pela Maurice Auction, de Paris, em parceria com a Kerry Taylor Auctions, de Londres, a venda reúne 195 lotes produzidos entre 1984 e 2008. O conjunto inclui roupas, fotografias, desenhos originais, amostras de tecidos, objetos de trabalho e peças do guarda-roupa de sua mãe, Léa Bouchet, figura considerada essencial em sua trajetória. Antes do leilão, o acervo também será apresentado em uma exposição aberta ao público em Paris.

Mais do que a dimensão do arquivo, o que torna a iniciativa histórica é seu formato. Esta é a primeira vez que um estilista ainda em vida participa diretamente da curadoria e da venda de seu próprio acervo em colaboração com uma casa de leilões, acompanhando pessoalmente a seleção das peças e a construção da narrativa da exposição.

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"Optar por abrir seu próprio arquivo dessa forma quase parece uma performance, uma performance que só poderia ser realizada por Martin", afirmou Alex Baddeley, especialista da Kerry Taylor Auctions, em entrevista à Wallpaper. "Esses objetos são como relíquias sagradas da moda; fazem parte de uma grande mitologia."

Entre os destaques está o portfólio produzido em 1987, reunindo colagens, anotações e os primeiros estudos do icônico sapato Tabi, um dos maiores símbolos da linguagem criada por Margiela. O documento foi roubado durante uma viagem de trem e recuperado pela polícia um ano depois, tornando-se uma das peças mais emblemáticas do arquivo.

Outro lote de destaque é um par de botas Tabi de 1991, transformado em peça única durante uma exposição no Palais Galliera, em Paris, quando visitantes foram convidados a escrever diretamente sobre o calçado. Também integram a seleção o jaleco branco usado por Margiela e sua equipe nos anos em que o ateliê da Maison Martin Margiela funcionava inteiramente pintado de branco, além de um telefone de disco com o número do estúdio escrito à mão e bonecas Barbie vestidas com versões em miniatura de looks históricos da marca.

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Parte significativa do leilão revela ainda um lado mais íntimo do estilista. O acervo reúne peças da Hermès pertencentes à sua mãe, Léa Bouchet, usadas durante o período em que Margiela comandou a direção criativa da linha feminina da maison francesa, entre 1997 e 2003. Entre elas está uma rara bolsa Initiale, desenhada pelo próprio criador em 2002.

Segundo Salomé Pirson, da Maurice Auction, o processo de organização da venda aconteceu ao longo de mais de um ano e seguiu a forma de trabalho característica de Margiela. Sem utilizar telefone ou e-mail, todas as decisões foram tomadas em encontros presenciais, em um trabalho de curadoria conduzido diretamente pelo estilista.

Embora museus devam disputar algumas das peças mais importantes, Baddeley acredita que o leilão também atrairá colecionadores particulares. "Há pequenos objetos e curiosidades que permitirão a muitos admiradores levar para casa um fragmento desse legado", afirmou.

Mais do que colocar peças raras no mercado, o leilão consolida uma tendência cada vez mais presente no universo da moda: a valorização dos arquivos como patrimônio cultural. Em um momento em que maisons e colecionadores voltam seus olhares para a preservação da memória criativa, o acervo de Martin Margiela surge não apenas como uma coleção de objetos, mas como um registro da obra de um dos estilistas que mais influenciaram a moda nas últimas quatro décadas.